Tuesday, September 19, 2017

WHO ARE YOU



"Who are you" é a única música do The Who que ouvi tocar em rádio em sua época e não se tratava de programa dedicado ao rock, a música tocava na grade normal. Saiu no disco homônimo de 78 e era a segunda vez que a banda usava o seu nome para compor, com maestria, um título. A primeira vez fora há sete anos: Who's next, também sem o ponto de interrogação (assim como a música do Sabbath).

Mas disco e música serão sempre lembrados por serem os últimos com o Keith, que na capa senta, vestido de jockey (podia ser bobo da corte, podia ser hitler, podia ser mergulhador, dependia de como acordasse), em uma cadeira onde se lê: NOT TO BE TAKEN AWAY.

Bastante irônico que uma canção que trate de um encontro de Pete com os Sex Pistols seja uma das mais progressivas da banda, pela duração, pelos teclados, pela mudanças de tempo.

Roger coloca a palavra "fuck" na letra como caco e a emenda fica melhor que o soneto. Ele já fazia isso em "My Generation", em que a letra pedia "Why don't you all fade away?" e ele perguntava, instead, "Why don't you all fuck off?". Nos Estados Unidos, Kim Kataguiri e o MBL trocaram o fuck por hell. Fuck.

Fuck.

O vídeo (inda que levemente editado em relação à versão do álbum) é lindo, um testamento eterno do The Who e, claro, em especial do Keith, falastrão, TDAH, irrequieto, criativo.

Nenhuma banda de rock brigou tanto, com direito a nocautes nada metafóricos. Nenhuma banda de rock viu-se forçada a ser democrática porque simplesmente não concordavam em nada. E, no entanto, nenhuma banda de rock ficou tanto tempo junta em sua formação original. E aqui no vídeo sorriem uns para os outros. Não é só que estavam sendo filmados. Dá pra sentir o carinho.

Eu morava aqui, fácil








Monday, September 18, 2017

BELL BOY



Há motivos de sobra para escolher 'Bell Boy' como uma das músicas do Quadrophenia, como uma das melhores músicas do The Who e, por conseguinte, de toda a história documentada da música ocidental, podendo ainda, de lambuja, deixar de fora o John e um dos melhores vocais do Roger. A música é do Keith, é o seu tema na personalidade quadrofônica esquizofrênica do Jimmy.

O começo com a bateria trovejante, na trilha-sonora, melhor que no estúdio posto que repetido na faixa seguinte "I've had enough", já deixaria claro de quem seria o tema, mas temos ainda os vocais do lunático. Nos shows, Keith sempre cantou sua parte com grande entusiasmo, deliciosamente confuso com baquetas, fone de ouvido, fios e microfone. Sua voz é aquilo mesmo. Não é qualquer um que consegue enfeiar "In my life".

A mixagem voz / instrumento (guitarra) seria imitada pelo Pink Floyd na apocalíptica "Sheep" e, anos depois, em "The Gunner's Dream".

No filme, o papel do bell boy é desempenhado pelo Sting, o ultra cool Ace, tanto admirado por Jimmy até a sua decepção final.

The beach is a place where a man can feel
He's the only soul in the world that's real

Uma das canções mais alto astral, 'abertas', de todo o disco.





FOCUS 4 EVER parte II



Tão logo vi Thijs saindo da van para a gig no Orquídea (2002), subi a Fagundes Varela voando e fui em casa pegar meu Focus III para o autógrafo.

Dez anos depois, a doce Camila, bien sûr, fez mais: conseguiu o autógrafo do Bardo em sua flauta doce. De quebra, ainda tirou onda e trinados com a transversal do mestre.

Tudo isso comemorado hoje com a ótima Magic Hat, uma Belgian Ale da Hocus Pocus que só não é soberba porque incorre em defeito comum ao estilo: o exagerado dulçor. Acharam que a flauta do Leer era a doce...






Alguns pequenos (porque vou para ver e ouvir e não para ficar gravando) vídeos do show: "House of the King", "Sylvia", "Hocus Pocus", este com com a imagem ruim.

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FOCUS 4EVER



Se as minhas contas estão certas, foi este o quinto show do Focus a que assisti, todos no Brasil, o que faz da banda a minha mais vista ever. Duas vezes no Canecão: a primeira como parte do saudoso RARF (Rio Art Rock Festival), produzido pelo Nahoum, em 2002, e logo três meses depois em um inesperado retorno.  Uma jam session inesquecível no Bar Orquídea, em Niterói, a que fui levado por amigos num domingo à noite sem saber que a banda tocaria. O cachê de Thijs & Companhia resumiu-se a chopes e pastéis, e que pastéis. Em 2012 tocaram no Rival e agora no Teatro Municipal de Niterói. Já ouvi dizer que Thijs considerou este mais recente como a melhor apresentação no país. Não sei se concordo, pois assistir ao Canecão lotado cantando "Hocus Pocus" em uníssono é das lembranças mais ternas e empolgantes que guardo.

Mas este mais recente (não digo último, por superstição e por acreditar que haverá um sexto e um sétimo) foi novamente maravilhoso. O som do teatro estava perfeito, muito apropriado para uma banda nos cascos. A musicalidade do Thjs é de fato qualquer coisa.

O velho Hammond é agora um Hammond moderninho. Os timbres são idênticos. O guitarrista Menno Gootjes nos faz ver que também a guitarra tem muito destaque na sonoridade da banda, geralmente lembrada mais pela flauta, pelo já citado Hammond e pela voz sui generis. O baterista Pierre van der Linden está de volta.

Pampi ao meu lado esquerdo pedia que eles tocassem "Janis", mas eles não tocaram. Eu pedia que tocassem "Love remembered" (nunca tocam) e "La Cathedrale de Strasbourg" (me atenderam em 2002, depois que muito gritei), Giana ao meu lado direito se derretia pelo Gootjes.

No final todo mundo realizado.

"Sylvia" será sempre uma das músicas mais alto-astral de que se tem registro na história da música ocidental.

PS: Pouco antes de o show começar fico sabendo que em novembro Locanda della Fate também tocará em Niterói. *sigh





Saturday, September 16, 2017

Sandy Bull : Melhor Guitarrista


Que Sandy Bull tenha gravado isso em 1963 é assombroso. Mas por quê? O que quero dizer?

Assombroso ainda hoje, É preciso ouvir

Em não poucos momentos lembramos do melhor que há na música tradicional sarda ou corsa e a minha é só impressão








Friday, September 15, 2017

A fantástica fábrica de chocolate (de Bonsucesso)



Fui a Bonsucesso conhecer a fábrica de chocolate artesanal Quetzal valendo-me de estratagema tão simples quanto infalível: desde o começo da Avenida dos Democráticos deixei-me guiar unicamente pelo olfato e isso em meio ao trânsito pouco amistoso da avenida. Passado um e outro percalço, logo estava em frente ao grande portão marrom (cor de chocolate...) que, uma vez vingado, conduziu-me a um espaço verdadeiramente surpreendente.

Em meio ao maquinário responsável pela torra, separação da casca e dos nibs do cacau, pela têmpera e pelo resfriamento, sobressai aquele a que cabem os processos de moagem, refino e conchagem: um velho moinho clássico de granito rosa dos anos 50. Esta máquina deliciosa e orgulhosamente obsoleta pode levar até 96 horas para fazer o que um moinho de esferas moderno faria em seis. Aqui um dos diferenciais da galera que quer produzir um chocolate com a atenção e carinho semelhantes aos das boas cervejarias artesanais. Outro diferencial, claro, reside no uso dos ingredientes.

Dos seis chocolates que os discípulos de Montezuma produzem, já conhecia o Bahia (com açúcar de coco) e o Dharma (com leite de coco e curry). Lá provei também o Bahl (com lascas de bergamota), o Theobroma (com nibs de cacau), o Xingu (com castanha do pará) e o Himalaia (com sal de rocha). As embalagens são lindas. Trouxe todos para casa e até agora não tenho preferido. Ando é pensando numas harmonizações com umas stouts e uns cabernets.







Wednesday, September 13, 2017

The Who :: O amor reina / chove sobre



Pior que incompleta, feia mesmo qualquer antologia mínima de músicas do The Who a serem ouvidas e vistas e lidas antes dos shows históricos no Brasil que não inclua "Love reign o'er me".

Um pouco sobre ela, seu lugar na obra, já escrevi aqui, quando tratei do amor em óperas-rock de modo geral. Hoje vejo que Pete precisava de um desfecho para sua opus magnum, ele que já vivia angustiado com o Lifehouse, projeto que nunca tomou forma direito, o que dirá desfecho. Era preciso dar um fim, ele nos vem com "Love reign o'er me".

Epifania final de Jimmy, "Love reign o'er me" soa como uma encarnação de outro angustiado: Raskólnikov, de Crime e Castigo. O ótimo filme que veio à luz seis anos depois ajuda a deixar isso mais claro (como se vê no ótimo clip abaixo). Jimmy perde emprego, família, amigos, namorada, lambreta e, por fim, a admiração pelo Ace, mero bell boy, lambe-botas dos ricaços, always running at someone's heel. Resta-lhe a chuva e, em sua forma neblina, o amor.

Jimmy perde a vida? Ambígua a cena final, mas tenho cá o meu palpite.

A versão da música presente na trilha-sonora passou pela produção do John Entwistle, que a encheu de sopros (metais e madeiras). Podem criticá-la, eu a amo de paixão, principalmente porque foi a versão primeira que conheci, há exatos 37 anos.





Tuesday, September 12, 2017

Jorge, poema da Maria Vitória



Essas histórias de levar alunos pra Lagoa pra escrever haikai (aqui), levar pro parquinho pra gritar TO INDEED BE A GOD e chutar a bola (aqui), tornar-se book people (aqui), subir em cima das carteiras etc, guardo-as para o Ensino Médio, que no Fundamental sou (ou não) mais pão pão queijo queijo, foquemos no conhecimento sistêmico para logo adiante alçarmos voos maiores.

Com este nono ano foi diferente. Já estavam eles escrevendo poemas e recitando-os, felizes, no parquinho.

Acreditei que dava e deu. Só não achava que a Maria Vitória, 14 anos, fosse me estapear a cara com o poema tão lindo escrito para o seu irmão Jorge, 6, que tem autismo.

Uma transcendência na manhã de quarta-feira.


JORGE
Maria Vitória Teixeira

How you turned my life upside down
How you make me feel like a clown
How you smile even when life seems to be ending
How this suffering is never ending

How I wanted to be sage enough to help you
How my life revolves around you
How sad I get when I don't understand you

How you piss me off
How you make me laugh
How you are my other half
How you are an angel
How life became painful

I'm proud that you are smart
I admire your big heart
Our love tears me apart
Every day, every hour
But I committed myself
To turn this pain into power 

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Música para acompanhar: "White Eagle", Tangerine Dream


Portões Fechados Corações Abertos



Era jogo de portões fechados. Jogo difícil, o Vasco ainda longe de convencer contra uma das equipes brasileiras  mais fortes da atualidade, fazendo bonito no Brasileiro e na Liberta. Por isso mesmo cumpria comparecer, mostrar que o tal do amor infinito não se limita a um verso de um grito de guerra. 

Clima apaixonado, porém de absoluta tranquilidade e cordialidade. Gremistas circulam de boas.

Um amigo hesita: incluo este na lista dos meus jogos do Vasco? É este meu jogo de número 200? A dúvida ele a tem só até antes da chegada do ônibus. O próximo, garante, será o 201º.