Sunday, April 22, 2018

Comida di Buteco 2018 :: Avaliação Literalmente Parcial

David

Começou na sexta-feira passada, dia 13, o Comida di Buteco 2018. Como a maior parte dos botequins localiza-se mesmo é na Zona Norte, resolvemos dar uma colher de chá para a Zona Sul, ticando logo todos os de Laranjeiras, Catete, Botafogo, Copacabana, Leme e Urca. Fizemos também um dos dois da Praça da Bandeira (ano passado eram quatro), o sempre imperdível Momo na Tijuca e unzinho do Grajaú.

Não sou muito bom nessa história de avaliação. Ou sou, se aceitarmos que não se deve julgar só com a razão e imparcialidade. É como escolher o melhor disco dos Beatles ou a sinfonia preferida do Mahler. Se estou no Morro do Chapéu Mangueira comendo uma cestinha folhada recheada de frutos do mar ao alho e óleo (Bar do David), é este o meu petisco preferido. Mas isso até eu descer para a Espírito Santo Cardoso e me lambuzar com o misto quente de joelho de porco servido na torrada Petrópolis acompanhado de ketchup de catuaba (Bar do Momo).

É duro.

Para todos os efeitos, até o presente momento, Camila parece eleger o tartar de carne de sol com chips de cará (aqui) como o seu favorito. Já eu estou entre a nona e quinta, digo, entre o bolinho de caldo verde do Sat's e a cama de tutu com banana da terra do Noo.

Considerações mais sérias na próxima postagem, por favor.

Pérola

Baixo gago

Bartman

Dafoca

Duque

Esconderijo

Satt's

Momo

Noo

Imortais

Urca

Zezimbar

Monday, April 16, 2018

Dois Painéis Azulejares em Copacabana (ou será Ipanema?)


Eu namorava de longe esse lindo painel azulejar neste edifício de esquina da Avenida Rainha Elizabeth com a Canning. Pela proximidade com a feira hippie, eu diria que ali é Ipanema, mas a municipalidade trata a rua da rainha belga como Copacabana. Não importa. Importa que eu namorava de longe, às vezes mesmo de dentro do ônibus, tal a minha timidez. Foi só agora que fui ter com eles e, qual não foi a minha surpresa, descobri que na entrada pela Canning há um outro painel, ainda maior, todo ele em suave curva que o semblante deste prédio de 1955 é modernista, com seus pilotis, com as geometrias da fachada, com os panos de vidro e, por óbvio, com os próprios painéis azulejares, tão ao gosto.

Minha paquera antiga tem 322 peças, mas nenhuma assinatura. Lembra um pouco Burle Marx que por sua vez lembra Portinari. Lembra aquele lindo da sede náutica do Vasco (aqui) ou Matisse. O outro pareceu-me um pouco menos autoral, mas nem por isso desinteressante. As coroas (notem) são de rainha, não de rei, mui apropriado para a rua.

O prédio foi tombado (provisoriamente?) em 2003.






Sunday, April 15, 2018

Comida di Buteco 2018 ::: Lula Livre!


Ano passado ou retrasado circulou pela internet um videozinho daquele sujeito asqueroso Kim Kataguiri em que elezinho aparecia comendo anéis de lula. A intenção de deboche era evidente (rarrarrá, que engraçado, Sr. Kataguiri), de modo que, quando pensamos em homenagear o Lula em nosso petisco para o Comida di Buteco 2018, tivemos que pensar num jeito de deixar claro, já desde o início, que se tratava de homenagem ao nosso ex-presidente hoje preso político. Nada difícil: o petisco se chama Lula Livre!

É já uma tradição nossa bolar um petisco por ocasião do festival (ver aqui). Se este ano fizemos logo no primeiro finde, é que a situação política bizarra que vivemos assim o exigiu.

Pois bem: um petisco com lula, algo que fugisse à mesmice dorê ou milanesa ou marinada, pois se trata de evento anual e se trata de homenagem. Pensamos numa guioza, depois num harumaki, mas como #lulalivre! se a lula estaria confinada dentro da massa? Aí a solução: um harumaki aberto, com a lula, triunfante e saborosa, sobre uma cama de molho de tomate agridoce (curry tailandês e açúcar mascavo). Como somos democráticos, entrou também um camarão.


Dizem os sábios transmontanos que elogio em boca própria é vitupério. Que digam. Ficou simplesmente espetacular.

Lula Livre!

PS: Chupa, Kataguiri!












Copacabana

Saturday, April 14, 2018

Vai em cará? :: Comida di Buteco 2018



Em nosso primeiro dia de Comida di Buteco 2018 batemos os costados no simpático Duque, em Botafogo, desconhecido para nós até então. Lá esperava-nos um tartar de carne de sol com manteiga de garrafa e chips de cará.

O cará lembra muito o inhame -- Pero Vaz de Caminha confundiu-os -- só que, ao contrário deste, é grande e imberbe, quase pornográfico. Em sua Descrição curiosa das principais produções, rios e animais do Brasil, principalmente da capitania de Minas Gerais (a galera setecentista adorava esses títulos sintéticos), Joaquim José Lisboa cantou-o:

Temos o cará mimoso,
Temos raiz de mandioca,
Da qual se faz tapioca,
E temos o doce aipim

Me lembro dele cantado também em versos do pastoril profano de Pernambuco:

O-lê-lê-ô
Fandango sinhá
Batata cozida
Mingau de cará

O petisco estava original e delicioso. O chef nos contou que seu patrão brincou com a ideia 'Ah, como é cozinha de raiz, você vai usar uma...'. Witzelsucht. Aliás, a iguaria foi batizada "E aí, vai em cará?" Rarrarrá. Mais Witzelsucht. Camila quando viu o nome disse logo 'Ah, é tua cara', ao que repliquei 'Minha cara não, minha cara. Minha cará'.

Friday, April 13, 2018

A Casa do Clóvis



Quem mora por ali passa em frente sem se dar conta. Quem está de ônibus, vindo do centro a caminho do Andaraí, Grajaú, Méier, Lins, Engenho Novo, Engenho de Dentro, Água Santa, idem. Passa em frente desde o primeiro dia no emprego até se aposentar e não tem olhos para a casa pequena, escondida pela folhagem, casa centenária (1906) que ostenta cinco janelas em sua fachada. Janelas difíceis de serem vistas. A entrada é pelo alpendre. Não diria uma bleak house, posto que térrea, sem torres ou torretes ou áticos. Dir-se-ia casa que não quer ser vista.

Pois ali nesta casa da Barão de Mesquita morou o jurista cearense Clóvis Beviláqua, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, com Machado e Nabuco, e que escreveu, sozinho, o Código Civil que perdurou por cem anos. E agora só coisas bonitas: foi padeiro da Padaria Espiritual. Ali, nesta casa térrea do Andaraí, recebia a população sem caraminguás para honorários. E, o melhor: sua mulher Amélia concorreu a uma cadeira da ABL, em 1930. A Academia, machista, negou-lhe a entrada, motivo para que Clóvis não tornasse a pôr os pés lá.

Pedro Nava, no início vertiginoso do capítulo "Engenho Velho", do Balão Cativo, descreve visão que, menino, teve do casal:

Dos personagens que me mostrava tio Salles. Aquele de fraque, chapéu coco, calça cinza, expressão simpática e sofredora, , dando o braço a uma senhora pomposa , cheia de plumas, de frisetes, um tanto arrogante e lembrando as damas de sociedade dos filmes do Carlito: Clóvis Beviláqua com D. Amélia a reboque.

A casa não é tombada. Parece que por lá vivem seus herdeiros. Espero meu amigo / irmão Felipe Barroso, conterrâneo do Clóvis, fazer um documentário a respeito. Ele que já fez da Padaria.


Wednesday, April 11, 2018

A Tiny Dancer de Agra ::: Crônicas Indianas XIX


Na primeira crônica indiana (aqui) tratei de falar do Café Sheroes, em Agra, das experiências mais marcantes de todas as viagens, palácios e templos e montanhas incluídos. Citei a menina que por lá dançava, tão desprendida de si e do mundo, coloquei fotos mas não vídeos.

Então esta postagem é para os vídeos. Uma menina que dança assim em um café nascido de brutalidades é a vitória da esperança.

Conversamos um pedaço com ela, perguntamos-lhe o nome, esquecemos. Para sempre será Tiny Dancer.





Sunday, April 08, 2018

Canto Nômade para um Prisioneiro Político


Música tem seu aspecto de religião, religião no sentido bonito: revelação, transcendência, amparo. Já fui salvo uma e outra vez, me lembro em especial de uma manhã de um 1o de janeiro em que me sentei no chão, encostei-me num poste e fiquei olhando o mar ali onde a Praia de Icaraí se encontra com a das Flechas. Eu estava muito confuso e triste. Olhando o mar e ouvindo o Still Life, do Van der Graaf Generator, devo ter ouvido "Pilgrims" dez vezes. Quando me levantei, olhos molhados de sal lágrimas mar e peregrinos, já era outro. Morri ali e levantei e toquei a vida pra frente, mesmo porque era só um primeiro de janeiro.

Não será coincidência que uma das músicas mais maravilhosas do progressivo italiano se chame "Canto Nomade per un Prigionero Politico", do Banco. Não será coincidência que ela comece, na voz eterna de Francesco, descrevendo um outono: "In questi giorni è certo autunno giù da noi.

E termine: 

Non sprecate per me una messa da requiem,
io sono nato libero.


Aqui um pequeno clip feito pelo fã-clube do Banco apenas para a música (editada) em questão. Um pouco piegas (bem, também o fui nesta postagem), mas vale.



 

Saturday, April 07, 2018

Aquelas Bandas Maravilhosas e seus Empresários nem tanto



A relação de grupos de rock com seus empresários pode ser bastante tumultuosa, principalmente quando o assunto é dindim. Imagine uns cabeludos em seus 20 anos, interessados apenas em fazer música -- eu disse 'apenas'?, bem, e em todos os dividendos que essa música pode gerar -- e uns engravatados sequiosos por lucrar ao máximo com o trabalho dos sujeitos. Nem toda banda tem a sorte de ter um ex-aluno de Economia em suas fileiras, como foi o caso do Stones. Aí você imagina. Pense um Allen Klein.

O consolo, como nas dores de cotovelo, é que os imbróglios podem gerar músicas maravilhosas.

Sem guglar, a clássica "You never give me your money" (1969), dos Beatles, evidente em suas intenções já desde a portada: "You never give me your money / You only give me your funny paper".

O Black Sabbath, injustamente pouco lembrado por suas letras, tem em "The Writ", fechando o maravilhoso Sabotage (1975), exemplo amargo e eloquente:

"What kind of people do you think we are?
Another joker who's a rock and roll star for you, just for you
(...)
You bought and sold me with your lying words"



Por fim, já que falou-se em injustiça ( e em ratos), toda a suíte "Mister Ten Percent", o lado B do lindo Illusions on a Double Dimple (1973), do Triumvirat, que conta a história de um empresário inescrupuloso que, no fim, leva um pé na bunda. O trecho que cito é a última das seis partes da suíte, como a do lado A. Um show de Hammond, um vocal emocionado, um arranjo perfeito. Fez-se destre trecho um single. (Por exigência do empresário??)

 
"Hands off, mister ten percent!!
We've got a gig tonight! Yeah!
Do you think we're gonna pay your rent?
Working for you 'til the end of our life!

At first you took ten, tomorrow it's twenty!
The more we give the more you want, ha!!
How could you think that you're still a friend?
It might be fifty in the end!

Who's going to work for you
For the rest of your life?"





Os Shows do Roger Waters no Brasil



Alguns alunos queridos já ansiosos para o show "Us and Them", do Roger Waters em outubro no Maracanã, uma já dizendo que é o show da sua vida. Será (j'espère) o da minha também. Outro.

Prometi-lhes mostrar os programas dos shows anteriores e consegui reunir todos: "In the Flesh" (2001, na Apoteose), "The Dark Side of the Moon" (2007, Apoteose), "The Wall" (2012, Engenhão). De quebra, a joia da coroa: a sua ópera Ça Ira, assistida em São Paulo em maio de 2013, com direito à sua emocionante subida ao palco no final.

Estes são tempos para se ouvir Roger Waters e sua mensagem antifascista. Ça Ira! - Há Esperança!



Tuesday, April 03, 2018

She's leaving home ::: A carta da moça




Em postagem do ano passado (aqui), falei do projeto em que os alunos escrevem a carta da filha que foge de casa em "She's leaving home". A filha que, num primeiro momento (e numa abordagem profundamente superficial) pode parecer ingrata, mas que estava é harta da superproteção e do egoísmo dos pais, e por isso ganha o mundo em busca da sua voz. E de amor.

Curioso como a letra fala primeiro em 'note' ("Leaving a note that she hoped would say more") para logo em seguida falar em 'letter' ("Picks up the letter that was lying there").

Houve quem escrevesse note, houve quem escrevesse letter. Nem falarei modéstia à parte, que o mérito nem é meu mesmo: mas o Paul ia amar. =)



Dear Mom and Dad,

Well this is the only way that I found to make you pay attention to what I’m about to say.

You thought you were giving me everything but actually you didn’t give me what I really need.

I fell in love, something that I think you’ll never understand. He loves me back, and to love each other we are going to run away.

Please don’t pretend that this is about you. For the first time I’m doing something for me and you are not going to stop me.

Bye-bye. I hope someday we may meet again.

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You don’t know why I have to say goodbye. That’s the reason why. I know that you could have loved me better but you didn’t. I loved you. I love you. I’ll always love you but you don’t feel the same as I do. I’m not trying to ruin your happiness. I’m trying to find my own. This is about me now, not you anymore

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Well… I don’t know exactly how start this letter, but I just can’t take it anymore! If you try to look for me, it’s too late, by the time you are reading this I’m already far away.
If you’re still blind and ask yourselves “why”, I will tell you all the things you and dad did to me since I was born. In my whole life, I never received any type of affection or love. Everything that I did, everything that I said… EVERYTHING was wrong for you and nothing could make you happy. I never had parents who care about me and about my happiness. Now I found what love means, now I can be happy, but far from you. Thank you for treating me as nothing. Bye

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Dear parents, forgive me for leaving you like this, you must think that I’m ungrateful and don’t love you as you think I should. I leave this letter to explain the true meaning of love. While you thought that suffocating me was the best way to love, something came and I didn’t know what it was… now I know. It was my desire to express myself and to live my life with people who really love me, so I ran away. Overprotection isn’t love, it’s selfishness! Today I am leaving because I need to be heard, I need love, I need a true love.

Kisses from a new girl
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Mom and dad, I love you, but in this last 5 years I am being unhappy and sad. I have felt that I cannot fulfill myself as a person inside home. I will find my place in the world and be happy. You protect me a lot, I appreciate every effort you have made to keep me safe. I will be OK, I won’t be alone.
I love you all. Bye.
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Dear mom and dad:

By the time you are reading, I’ll be gone. I’m leaving because you never cared about my happiness. Throughout the years, I realize that money doesn’t matter. All I wanted was live my dreams with people who make me happy. Unfortunately you aren’t these people. I want you to know that I hold no grudge, but I can’t take this anymore. I hope you have a good life. I also hope you learn with the mistakes and stop being so selfish. Don’t try to find me, I’ll be fine.

XOXO,
Your daughter
=)
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Hi, Mom and Dad, I’m writing this letter to tell you that I’m leaving home because you don’t give me the most important that I want, isn’t money, car, home, clothes etc, that is love, and you focus so much on money that you forgot to give me some attention. And you are so jealous that probably at this moment you are thinking just about your problem, and not about me. And Fuck you, bye bye!

Your ex-daughter
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I’m leaving home
I hope you’d understand
I need this to be happy
         Love you
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Dear mom and dad,

I’m tired. I’m tired of everything. I’m tired of your selfish way. That’s the reason why I’m going out home. I’ll be fine everywhere. I won’t say where I will go because I don’t want you there. I don’t want to see you. This is your fault. I wanna be happy and have peace and with you, I can’t. You make me sad every day, every time. I wanna be happy once in life but you don’t care about it. So, bye.

With love,

*********************

Mom and dad, I’m sorry for leaving like this

But I’m tired of feeling that I don’t have my own voice here… I feel like I’m stuck, like I don’t have freedom.

You took care of me, gave me all the things that money could buy. But money can’t buy my freedom or love.

All that I ever wanted was your attention, your real love, and not just material things.

I hope you realize that money and selfishness aren’t what really matter.

I’ll be fine. I’ll be happy and free.

Love you, bye bye…

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Mom and dad,

By the time you read this I should be probably be miles away. I know deep down in my heart you love me but I need to go find something that you can’t buy me.

I’ll send letters soon, please take care of yourselves.

With love,

Your daughter.
 **
 
Dear Father and Mother

I think that I should never come back home because you two treat me like a little kid, and I am not a little kid anymore, so I gonna stay out of your home for the rest of my life, because I want respect, and not a lot of gifts and money. I still love you too, but I can’t go on living like that, good-bye until never more.


With all my feelings
Your daughter
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Mom, dad, I came through this to say what I could never say personally. Not because I don’t have courage, it’s because you couldn’t get it. I know you guys think you love me but, after all, all this love is just a pressure and my life became the life you always wanted and couldn’t have it. But you never really think about me, what I want, what will make me happy. That’s why I      ‘m leaving, ‘cause I want to live my life, to be the real me. I hope you guys really try to understand me. And still remember me as the little girl you think I am. With hope and nowhere to go. Your little darling.
************************************

Dear mom and dad,

I’m sorry, but I had to do that. I wasn’t happy, I wasn’t feeling good enough. For a long time I was feeling this way.

You’re stupid, overprotective and selfish! You guys only think of money and things. You never thought about me, about my happiness! I didn’t feel loved by you…

I won’t tell you where I’m going or if I’m alone or with someone. I’m finally free!

Well, that’s what I had to say.
XOXO, your daughter

Thursday, March 29, 2018

A história que meu pai não contou



"A história que meu pai não contou", de Victor Giudice, cabe fácil numa seleção dos melhores contos da língua. Dez melhores. Enigmático, cruel, cortarzariano, mas sobretudo na linha de Dino Buzzati (aqui) .

São do Victor os melhores registros de São Cristóvão (aqui), onde morou :: o seu Urucuia, o seu Yoknapatawpha.

Trocando em miúdos: Sara Maria não me dava a mínima atenção ou, para ser mais exato, nem me enxergava. Todas as tardes, quando as aulas terminavam, eu assistia ao seu desaparecimento, engolida pelas alamedas do Campo de São Cristóvão daquela época: um imenso jardim francês, enfeitiçado por infinitos canteiros de dálias brancas e gérberas amarelas, em meio a uma guarnição de arbustos, aparados em forma de gansos, elefantes, cavalos. Um jardim de Montrouge não seria mais satisfatório. Entre os canteiros, os flamboyants completavam o cenário, as alamedas onde Sara representava sua indiferença. Estoicamente, na ingenuidade dos onze anos, eu me escondia entre as colunas em frente ao Cinema Fluminense, para deixar o coração esfacelar-se a cada passo da minha ideia fixa. As meias brancas, sublinhadas pelos sapatos de verniz, eram os últimos pontos a se perderem, quando a saia verde já se confundia com a vegetação, e os cabelos louros com o sol poente. A paixão solitária foi o motivo, mais solitário ainda, da minha hospedagem no Hotel da Morte.

Wednesday, March 28, 2018

Traffic de Mellotron


Foi Camila quem me aproximou do Traffic, que eu conhecia apenas perfunctoriamente, enquanto ela, bem pelo contrário, tinha o Steve Winwood na conta de muso-mor do seu panteão progressivo, ao lado do Carl Palmer. Houve mesmo junho em São Pedro d'Aldeia, em 2013, que teve The Low Spark of High-heeled Boys como trilha-sonora de sexta a domingo.

Entre tantas audições, reparo numa música com um lindo mellotron e daí vou direto à bíblia Planet Mellotron para descobrir que são pelo menos quatro as canções em que o Tron brilha: três do primeiro disco de 67 ("House for Everyone", "No Face no Name no Number" e "Coloured Rain") e outra do último, sete anos depois, "Dream Gerrard".

Em todas elas o mellotron é de enfartar. Em "Dream Gerrard" o suingue é mais traffic que nunca, embora fosse já o Schwanengesang da banda.
PS: Com esta postagem inaugura-se oficialmente a 'tag' mellotron!

Sunday, March 25, 2018

Saliva barro gravetos



de saliva barro gravetos
faz-se a casa
equilíbrio instável
sobre o concreto do mundo
de saliva gravetos barro
faz-se o amor
sempre em desequilíbrio
não menos amor
os gravetos trazidos no bico incansável
o barro plasmado com paciência
a saliva dando liga
pingando
sobre o sexo


ps :: a ilustração é bordado da sophia sickermann

Saturday, March 24, 2018

Crônicas Juiz-de-Foranas VI ::: A Rua Halfeld


Logo na segunda página do seu Baú de Ossos, primeiro volume de sua imensa memorialística, Pedro Nava trata da principal rua de sua cidade natal, a vida imitando a vida na distinção que ele faz entre as margens direita e esquerda.

Halfed, como sabemos, foi o avô que ele não teve: o homem de quem sua intratável avó enviuvou. Antes, por supuesto, de casar com aquele que seria o seu avô.

A Rua Halfeld desce como um rio, do morro do Imperador, e vai desaguar na Praça da Estação. Entre sua margem direita e o Alto dos Passos estão a Câmara; o Fórum; a Academia de Comércio, com seus padres; o Stella Matutina, com suas freiras; a Matriz, com suas irmandades; a Santa Casa da Misericórdia, com seus provedores; a Cadeia, com seus presos (testemunhas de Deus -- contraste das virtudes do Justo) -- toda uma estrutura social bem pensante e cafardenta que, se pudesse amordaçar a vida e suprimir o sexo, não ficaria satisfeita e trataria ainda, como na frase de Rui Barbosa, de forrar de lã o espaço e caiar a natureza de ocre. (...)

Já a margem esquerda da Rua Halfeld marcava o começo de uma cidade mais alegre, mais livre, mais despreocupada e revolucionária. (...)




Friday, March 23, 2018

Assistir a um jogo do Tupi



Um dos sonhos da minha vida (sente o nível) era assistir a um jogo do Tupi. Mas lá em Juiz de Fora, porque há muitos muitos anos eu já tinha assistido a um América X Tupi no estádio da Vila Isabel quando havia estádio em Vila Isabel. 

Enfim realizei: um Tupi X Tombense pelas quartas-de-final do campeonato mineiro. O Galo Carijó vinha de uma goleada tedesca na rodada anterior: 7 X 1 sobre o Democratas-GV e como dia de muito é véspera de pouco, já este jogo não saiu do zero a zero.

Mas teve cerveja artesanal (Antuérpia) já dentro do estádio, teve ambulantes vendendo pele de porco que o mineiro não passa sem o seu porquinho e teve, claro, o indefectível espírito mineiro nos comentários durante todo o jogo.

Eu disse zero a zero? Vamos aos pênaltis. O Tupi não perdeu um e meteu 4 a 2. A explosão de alegria, a galera que nem pinto (ou galo) no lixo.

E dá-lhe dá-lhe dá-lhe ô, Tupi do meu coração!


  





No botequim encontro a torcida do Tombense!